Estamos respirando a morte
Publicado na Revista Boa Vontade, 200, de abril de 2005
Viver no presente momento é administrar o perigo
Notícias recentes, que relatam a sistemática degradação ambiental, promovida pela sociedade moderna, e seus trágicos efeitos para a vida no Planeta, despertaram-me a idéia de trazer a Vocês, leitores atentos da revista BOA VONTADE, um trecho de meu livro Crônicas & Entrevistas, publicado pela Editora Elevação, em dezembro de 2000, ao qual acrescentei informações atualizadas sobre o tema. No capítulo denominado “Cuidado, estamos respirando a morte”, apresento algumas reflexões sobre causas e conseqüências envolvidas nesses fatos.
Um dia desses, alguém dizia que “o aumento da gasolina”...Pensei cá com os meus botões: Gasolina?! O que anda por aí é tudo, menos o veterano derivado do petróleo. Comparando a de antigamente aos odores fétidos dos combustíveis de hoje, chega a lembrar fragrâncias de perfumaria. Atualmente, em vastas regiões da Terra, o simples ato de respirar corresponde à abreviação da vida. Sofrimentos de origem alérgica e pulmonar crescem em progressão geométrica. Hospitais e consultórios de especialistas vivem lotados com as vítimas das mais diferentes impurezas. Abeirar-se do escapamento de um veículo é suicídio, tal a adulteração de combustível vigente por aí. Isso sem citar os motores desregulados...
Cidades assassinadas
Quando Você se aproxima, por estrada ou via aérea, da capital bandeirante, logo avista paisagem sitiada por oceano de gases nocivos. Crianças e idosos vivem lá... Merecem respeito! O desenvolvimento e a sobrevivência deles dependem diretamente da qualidade do meio em que vivem. A exposição constante aos poluentes, com freqüência, é letal. A parca vai se instalando, pouco a pouco, em corpos e mais corpos. Observem o estudo, apresentado por Rafael Cariello, da Folha de S. Paulo, direto de Nova York:
“Segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia do Sul, autores de ‘Os efeitos da poluição do ar no desenvolvimento do pulmão’ e que monitoraram 1.759 pessoas dos 10 aos 18 anos, em 12 cidades, a incidência de jovens com capacidade pulmonar abaixo do normal entre as que cresceram em ambiente poluído é cinco vezes maior. ‘Déficits ligados à poluição’, diz o texto, são “grande fator de risco para complicações e mortes na vida adulta”.
Eis que, dia a dia, de maneira implacável, a saúde de todos vai sendo minada. A começar pela psíquica, porquanto as mentes humanas vêm padecendo toda espécie de pressões. Por isso, pouco adiantará cercar-se de muros cada vez mais altos, se de antemão a ameaça estiver dentro de casa.
Tal é a proporção dos riscos ao organismo que seus efeitos já aparecem na população, consoante revela a pesquisa de autoria de Ubiratan de Paula Santos, do INCOR (Instituto do Coração) do Hospital das Clínicas de São Paulo, também publicada pelo mesmo jornal no dia 2/4/2003:
“Um estudo realizado com 50 marronzinhos — fiscais de trânsito — na cidade de São Paulo, todos sem relatos de doenças, mostrou que, em períodos de maior poluição, eles tinham um aumento da pressão arterial e alteração de mediadores químicos (como fatores de coagulação) que podem levar a problemas circulatórios. As mudanças estavam relacionadas principalmente aos poluentes gerados por automóveis”.
No Rio de Janeiro, a despeito do mar, o envenenamento atmosférico avança, sem falar na contaminação das praias... O que surpreende é constituírem São Paulo e Rio metrópoles altamente politizadas. E o problema não se contém nas fronteiras nacionais. De fato, acentua-se ainda mais em outros grandes centros, a exemplo do que publiquei na nova edição de meu livro As Profecias sem Mistério, da Editora Elevação, no qual transcrevo algumas recentes notícias que expõem a gravidade da situação:
China admite que 360 milhões bebem água poluída no país — (...) O governo admite também que mais de 70% dos rios e lagos do país estão contaminados. (...) O governo enfrenta dificuldades para encontrar um equilíbrio entre o acelerado desenvolvimento econômico e o impacto ambiental. (...) O total de pessoas ameaçadas pela água que consomem representa um terço da população das áreas rurais. (BBC Brasil — 23/3/2005)”.
“Poluição do ar mata 310 mil europeus por ano — (...) O país europeu mais afetado é a Alemanha, onde morrem anualmente 65.088 pessoas devido ao problema. Seguem-se a Itália, com 39.436 vítimas mortais, e a França, com 36.868. (...) A morte por poluição atmosférica não é um problema novo nem restrito à Europa ou à Alemanha. Em 1997, a Organização Mundial de Saúde já relacionou 700 mil mortes anuais à poluição. Uma pesquisa publicada pela revista Science em 2001 fez a seguinte projeção para 2020: se as cidades do México, Nova York, Santiago e São Paulo baixassem em 10% sua emissão de gases poluentes, seria possível evitar 64 mil mortes e 65 mil casos de bronquite crônica por ano nessas cidades. (Deutsche Welle — 24/3/2005)”.
Despoluir qualquer cidade deveria fazer parte do programa corajoso do político que realmente a amasse. Não se pode esperar que isso apenas ocorra quando se tornar assunto lucrativo. Ora, nada mais proveitoso do que cuidar do cidadão, o Capital de Deus. As questões são múltiplas, mas esta é das mais graves: estamos respirando a morte. Encontramo-nos diante de um tipo de progresso que, ao mesmo tempo, espalha ruína. A nossa própria.
Comprova-se a precisão urgente de ampliar em largo espectro a consciência ecológica do Povo, antes que a queda de sua qualidade de vida seja irreversível. Este tem sido o desafio de vários idealistas.
Entretanto, a ganância ainda tem sido maior que a Razão. O descuido no preparo das comunidades, para que não esterilizem o solo onde habitam, mostra-se superior ao instinto de sobrevivência.
A água está acabando
A Tribuna da Imprensa, de 10 de março de 2000, revelou a conclusão de um novo estudo divulgado pelo instituto independente Worldwatch, com sede nos Estados Unidos, que diz:
O gelo ártico perde uma área equivalente à Holanda a cada ano, ou cerca de 34.300 quilômetros quadrados. (...) Como o gelo permanente funciona também como um espelho, refletindo o calor solar e mantendo a temperatura da Terra relativamente fria, teme-se que o atual derretimento multiplique os efeitos devastadores do aquecimento global da atmosfera. Antes da catástrofe, porém, o gelo derretido já vem causando problemas para cidades que dele dependem para seu suprimento de água potável. Lima, no Peru, é um exemplo dramático.
Cada um dos seus dez milhões de habitantes dispõe hoje de apenas três metros cúbicos da água proveniente da geleira de Quelccaya, quando, há dez anos, dali eram tirados 30 metros cúbicos”.
Conseqüência do efeito estufa? Uns afirmam que sim; outros, que não. A verdade é que se trata do resultado da insensatez de gente que “não enxerga um palmo adiante do nariz”, como cantava na melodia popular de Noel Rosa (1910-1937) , “Com que roupa” o poeta Pedrinho Bevilacqua.
Há, ainda, graves resultados indiretos do aquecimento demasiado da atmosfera terrestre. O equilíbrio biológico natural do Planeta está sendo afetado. Sua complexa e delicada harmonia apresenta séria degradação. Além da extinção em massa de diversas espécies da fauna e flora, sensíveis às alterações ambientais bruscas, os efeitos do fenômeno podem originar epidemias em latitudes que, naturalmente, são de clima quente e outros problemas orgânicos em todo o Globo, como podemos observar nesta outra matéria publicada pela BBC/Brasil:
“O aumento da temperatura cria condições ‘propícias’ para o crescimento de casos de malária na Amazônia e de dengue nos centros urbanos, afirmou à BBC Brasil o cientista Diarmed Campbell, da Organização Mundial de Saúde (OMS). “‘Os países tropicais como o Brasil são muito mais vulneráveis às doenças do que os países europeus’, disse Campbell. “O alerta foi dado durante a apresentação do relatório da OMS sobre as mudanças climáticas e o seu impacto na saúde do homem, durante a Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, em Milão.“Segundo a pesquisa, 2,4% dos casos de diarréia e 2% das incidências de malária em todo o mundo são conseqüências diretas do aumento de temperatura no planeta. “Nos países industrializados, as conseqüências surgem na forma de estresse, que pode levar à ocorrência de infartos, e de-sidratação, como os 20 mil mortos registrados no último verão europeu.“Sinusite, bronquite e asma são outros sintomas de que o ar está muito poluído. Já nos países pobres ou em desenvolvimento e localizados principalmente na região tropical do Globo, a elevação da temperatura provoca diarréia, malária, intoxicação alimentar, leishmaniose e desnutrição, além de outras pragas.
“(...) O estudo publicado pela OMS diz que o aumento da temperatura mundial pode favorecer a propagação de doenças originadas na água ou transmitidas por insetos”.
A poluição que chega antes
A infinidade de poluições que vêm prejudicando a vida de cada um deriva da falência moral que, de uma forma ou de outra, inferniza a todos. Viver no presente momento é administrar o perigo. A jovem Geisa*1, maltratada e morta na tragédia da Rua Jardim Botânico (junho de 2000), começou a ser assassinada no dia em que o excluído Sandro*2 foi largado, menino, às feras da rua. Mas ainda há tempo de acolhermos a asserção de Antoine de Saint-Exupéry*3 (1900-1944), cujo centenário (estávamos em 2000) está sendo agora comemorado:
— É preciso construir estradas entre os homens.
Realmente, porque cada vez menos nos encontramos nos caminhos da existência como irmãos. Longe da Fraternidade, não desfrutaremos a Paz.
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*1 e 2 Geisa Firmo Gonçalves e Sandro do Nascimento — Artesã e professora, de apenas 20 anos. No dia 12 de junho de 2000, Geisa voltava da favela da Rocinha, onde trabalhava com crianças carentes, a caminho do Jardim Botânico, quando seu ônibus foi seqüestrado por Sandro do Nascimento, um jovem que havia, alguns anos antes, sobrevivido a uma chacina acontecida na Candelária. A professora foi feita de escudo humano e acabou baleada e morta durante a operação de resgate realizada pela polícia.
*2 Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) — Nasceu em Lyon, França. Foi aviador de profissão e escritor por devoção. Seu livro mais conhecido O Pequeno Príncipe é um convite à reflexão para que as pessoas se humanizem. Antoine foi oficialmente contra o governo nazista e combativo membro da Resistência Francesa. Quando O Pequeno Príncipe foi publicado em 1943, a França estava ocupada pelo exército germânico. Faleceu quando seu avião foi abatido por um piloto alemão da Luftwaffe.