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Esopo, Liberdade, Esperança (BOA VONTADE 218)

Ninguém aprisiona o Espírito de um homem livre (Revista Boa Vontade, 218, de abr/mai de 2007)

Fui aluno do Pedro II, o antigo Colégio-Padrão, no Rio de Janeiro. Boas recordações guardo dos mestres Homero Dornelas, assessor do genial Heitor Villa-Lobos; Honório Silvestre; José Jorge; Newton de Barros; Pompílio da Hora; Sá Roriz; Farina; Choeri; Sebastião Lobo; José Marques Leite; Fernando Segismundo, ex-presidente da Associação Brasileira de Imprensa, a nossa ABI; e outras notabilidades nacionais.

Lá estudávamos as páginas de Esopo, Fedro, La Fontaine…

Fábulas, todos sabem, são narrativas em que os animais falam, acertam ou se equivocam, possuem sabedoria ou empá­fia. Enfim, singularizam os homens com as suas qualidades e defeitos. Esopo, um cativo grego na ilha de Samos, viveu há cerca de três milênios e era campeão em contar essas historinhas, que sempre nos convidam a refletir. Uma delas é:

O cão e o lobo


Vinha um cão por uma estrada. De súbito, deu de frente com um lobo, que lhe disse:

— Amigo, estás com uma excelente aparência! Forte, lépido, feliz. Sinto até inveja de ti…
— É mesmo?! Faze então igual a mim. Consegue um dono bondoso. E terás alimento nas horas certas e serás bem-cuidado. Meu único serviço é, se aparecerem assaltantes, latir à noite. Vem, pois, comigo e ele te dará semelhante tratamento.

O lobo considerou a proposta muito boa e foi acompanhando o cão no caminho de casa.
Até que, a um dado instante, um fato despertou a sua curiosidade.

— Que é isso pendurado em
teu pescoço? Estás machucado?
— Bem... — respondeu-lhe o cão — é por causa da coleira.
— Quê?! — espantou-se o lobo…
— De dia, meu senhor me prende com ela. Não quer que eu apavore as pessoas que o visitam.

Ouvindo isso, o lobo não quis mais conversa e abandonou o cão no meio do trajeto, todavia sem antes lhe dizer:

— Amigo, esquece tudo, porque não te seguirei mais. Acho melhor viver liberto do que na tua aparente abastança.

Moral da história

Não há ouro suficiente que valha a liberdade.
E, assim, o velho filósofo da Hélade, que era mentalmente livre, apesar de padecer a ignomínia da escravidão, deixou-nos, entre outros, um grande preceito.
Contam que o seu senhor, espantado com tamanho saber, lhe deu carta de alforria.

A lição de Jesus

O ensinamento de Jesus é superior ao do fabulista. Encontra-se no Evangelho, segundo João, 8:32: “Conhecereis a Verdade (de Deus), e a Verdade (de Deus) vos libertará”.

Eis a diferença — a verdade dos homens, em geral, costuma deixá-los malogrados, porque às vezes é apenas Razão, que pode variar conforme os mais diversos fatores, incluídos os de longitude, apesar da globalização infrene. A de Deus, porquanto Razão embasada na justiça e firmemente no Amor, por conseguinte distante de fanatismos ou convicções pétreas, eleva-os ao esclarecimento maior, até mesmo nas dúvidas mais recônditas, premiando-os, quando pacientes e pertinazes, com a emancipação que não os surpreenderá, adiante, com as mais tristes frustrações. Isso ocorreu com ilustres pensadores que viram suas certezas abaladas, ou mesmo derruídas, com a falência de ideologias brilhantes, porém pouco eficazes. Entretanto, como esclareceu Lavoisier (1743-1794): “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Ninguém é culpado, sendo crente ou ateu, por querer, em todos os sentidos, o melhor para o povo.

A Esperança não morre nunca

Há alguns anos, no Rio de Janeiro, assisti a um jovem dizer na televisão que “a Esperança havia morrido”. Não sou poeta. Mas tomei da caneta e ousei estes simples e despretensiosos versos, depois musicados pelo maestro Vanderlei Alves Pereira:

A Esperança
não morre nunca!
Nunca!
Não morre, não!
Pois, como a vida,
que é eterna,
mãe tão fraterna,
pode morrer?!
Não, não morre
nunca!
Não morre, não,
a Esperança no
coração!

Certamente, semelhante expectativa ainda sustenta os corações de muitas crianças angolanas. Um diplomata, conhecido do meu companheiro de ideal ecumênico José Santiago Naud, co-fundador da Universidade de Brasília, pôde apreciá-las em sua alegria inocente, apesar da guerra que ensangüentou a pátria de Agostinho Neto (1922-1979) por quase trinta anos.

Disse-me o amigo de tornaviagem que no interior, perto de Luanda, viu comovido certa vez o grupo de uma centena delas, cantando em torno do seu malpago professor, que dançava:

— Se eu pudesse voava ao encontro da paz, abandonava essa guerra, ficava ao lado da paz.

Liberdade e esperança são dois sentimentos de que a criatura humana não pode abrir mão. Deve, contudo, saber honrar o primeiro para ser merecedora permanente do segundo.

Ninguém aprisiona o espírito de um homem livre. Que o diga o Gandhi, que escreveu muitas de suas mais belas e decisivas páginas enquanto sofria prisões na luta pela libertação dos indianos.
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