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O mais belo discurso de José do Patrocínio

Artigo publicado no Jornal O Estado do Paraná, em 20/5/7.



Humberto de Campos relata que “na Academia de Letras, casa a que o tribuno formidável pertenceu (…), o senhor Félix Pacheco leu um amplo e substancioso estudo sobre a vida do Grande Negro, citando, a título de informação, os autores brasileiros que têm analisado a existência e a obra do Negro Redentor. E foi quando, agradecendo uma referência justa que fizera ao seu nome, o senhor Coelho Neto se ergueu para um daqueles seus improvisos magistrais, e começou:

“ ‘– Senhor presidente, a obra que a figura de Patrocínio reclama, ainda está por escrever. Só nós, os que o conhecemos de perto, poderíamos esculpir o gigante magnífico. Ainda assim precisaríamos recorrer, para isso, ao trovão e ao relâmpago’.

E recordou fatos, desenhou cenas, restaurou episódios. Lembrou Patrocínio enfermo, num catre de palhoça suburbana, coberto por um xale azul, mortalha alegre que a esposa lhe atirara sobre os ossos. Recordou-o, épico, erguendo-se, montanha de ferro diante de montanha de mármore, na luta com Rui Barbosa. E descreveu, para findar, este espetáculo, digno de grandes varões:

“ ‘– É na noite de 13 de maio de 1888, Patrocínio, que discursara o dia inteiro, chega à redação do A Cidade do Rio, e atira-se, afônico e semi-morto de cansaço, em um sofá do seu gabinete de diretor. Amigos e companheiros cercam-no, impondo-lhe repouso. O titã não receberá mais ninguém, não atenderá mais a ninguém. Venha quem vier. E começam a tomar precauções nesse sentido, quando um dos redatores entra no gabinete e comunica:

“ ‘– Está aí embaixo o Dr. Benjamin Constant, em companhia dos cegos do Instituto’...

Entreolham-se todos. A homenagem é tão comovente que ninguém tem coragem de propor uma recusa.

“ ‘– Pede-lhes que subam... – sussurra Patrocínio, fazendo-se entender mais pelo gesto do que pela palavra’.

Momentos depois, alinham-se no gabinete desarrumado dez ou doze cegos, que se põem em fila, pisando-se aflitamente uns aos outros. Tomando a dianteira deles, Benjamin diz, comovido:

“ ‘– Patrocínio, os meus alunos, os cegos do Instituto, pediram-me que os trouxesse aqui para ver-te... Emprego de propósito este verbo, Patrocínio, e repito-o: meus cegos vieram te ver’.

O Grande Negro abre a boca para falar. A barba treme-lhe, hisurta, mas nenhum som lhe sai dos lábios grossos. Os olhos enchem-se-lhe d´água. E desatando em soluços, mas sem proferir palavra, atira-se, com o rosto lavado de pranto, nos braços de Benjamin Constant.

Cena soberba e patética. Todos, em torno, têm os olhos úmidos, ou choram abertamente. Os cegos, em fila, quietos, interrogam o silêncio, adivinhando o que ele esconde. Ao cabo de alguns minutos, porém, o futuro proclamador da República volta-se, emocionado, para eles, e diz-lhes, a voz trêmula:

“ ‘– Meus filhos, acabais de ouvir o mais belo discurso que este grande homem já pronunciou e que se poderia pronunciar no mundo. Fostes testemunhas de uma cena que só o coração pode compreender... Vamos!’

E desce a escada, guiando o seu atarantado rebanho sem olhos.”

Eis que aquilo que os deficientes visuais souberam “ver” na cena magistralmente descrita pelo autor de Carvalhos e Roseiras, outro tipo de “cego”, hoje, nem mesmo percebe. A independência ou cativeiro de um povo origina-se de sua intimidade moral e intelectual. Daí a famosa advertência de Jesus: “Conhecereis a Verdade (de Deus), e a Verdade (de Deus) vos libertará.” (Evangelho, segundo João, 8:32).
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