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Deus, Equação e Amor

A contradição entre Divindade e Ciência, na verdade, nunca existiu.

  • José de Paiva Netto, Diretor-Presidente da Legião da Boa Vontade.
O maior estorvo para o grande amplexo entre Religião e Ciência, que são irmãs, é a continuação, no palco do saber, do deus antropomórfico, que não prejudica somente o laboratório, como também o altar.

Guerra Junqueiro (1850-1923), combativo poeta português, que ainda hoje provoca silêncio temeroso ou polêmica, canta o Deus Divino em oposição ao deus humano, vingativo e sanguinário, nestes versos tocantes de O Melro, quando um velho abade, comovido com a morte do pássaro, com quem diariamente digladiava, e de seus filhotes, exclama:



(...) Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d’almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora...
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!... (...)
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava...

Certo estava o autor de A Musa em Férias: “Ah, Deus é bem maior do que eu julgava...”

Ele não tem forma humana. Não se trata, pois, do que tão restritivamente alguns ainda cogitam a Seu respeito. A criatura terrena por enquanto não O vê, mas pode senti-Lo toda vez que, em verdade, ama e Dele se afasta quando odeia. Falo ao Ser Infinito que criou o Universo Infinito. O Pai Celestial seria, poetizando, uma Sublime Equação cujo resultado é o Amor Fraterno.

Como o Universo perspectiva um colossal poema em louvor à ação e à beleza, nesta crônica cabe muito bem a apologia que faz da Eternidade o grande pensador francês Victor Hugo (1802-1885):

Tudo se move e exalta e se esforça e gravita;
Tudo se evola e eleva e vive e ressuscita;
Nada pode ficar na surda obscuridade.
D’alma exilada a senda é toda a eternidade,
que se aconchega ao céu, que a todos nós reclama.
Aos dóceis se atenua a dolorosa flama
da dura provação. A sombra faz-se aurora,
homem e besta em anjos se aprimora;
e pela expiação, escada de eqüidade,
de que uma parte é treva e a outra claridade,
sem cessar, sob o azul do céu calmo e formoso,
sobe ao universo dor, ao universo gozo.

A vanguarda de uma Ciência que elevará o Ser Humano a raciocínios, hoje, inconcebíveis para a maio­ria, volta o seu olhar para a Espiritualidade. (...)
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